Armando Carrondo

Armando Carrondo
Portugal, 1948
Produtor, editor
O produtor e editor português Armando Carrondo é um personagem ligado à música cabo-verdiana pelo grande número de discos de artistas cabo-verdianos que lançou, ao longo de quase 20 anos. Comerciante de móveis e eletrodomésticos, tinha o seu estabelecimento na rua de São Bento, em Lisboa, sempre muito frequentada por cabo-verdianos. Certo dia apareceu-lhe alguém a oferecer 20 ou 30 singles de Bana. Estavam num navio vindo de França que escalara Lisboa e os estivadores abriram embalagens e furtaram alguns. “Calhou, por azar meu, ou sorte, o Bana nessa altura estar em Lisboa. Era um disco que ia ser lançado em Cabo Verde, ele ouviu dizer que estava à venda na rua de São Bento, foi à polícia marítima, vieram e apreenderam os discos – por acaso, só uns três ou quatro, pois a maior parte já tinha sido vendida”, conta Armando Carrondo em Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens.
Diante da rapidez das vendas e observando que naquela região não havia lojas de discos, “meio por brincadeira, mandei um empregado fazer uma caixa de colocar à entrada da loja com compartimentos para LP e para discos pequenos. Comecei a comprar discos, não só cabo-verdianos. Inicialmente por intermediários, pois não tinha conhecimentos no meio”, conta. Por volta de 1971, imigrantes cabo-verdianos provenientes da Holanda mostraram-lhe um LP de Luís Morais. “Era o Boas festas, que mais tarde vim a reeditar. Vi a morada da Casa Silva, em Roterdão, arranjei uns cheques bancários em florins, eu tinha uma carrinha, resolvi meter pés ao caminho e ir até lá. Foi a primeira aventura em que me meti com a música cabo-verdiana.”
Em Roterdão, Djunga de Biluca sugeriu-lhe o LP que ia lançar naquele momento, o primeiro de Mário Pop, que, segundo o comerciante, foi um êxito. A partir daí, vendo que havia um bom mercado, Armando Carrondo afastou-se do outro negócio que tinha, tornou-se importador e exportador, produtor e editor, dedicando-se exclusivamente aos discos e cassetes. “Começo a ir à Holanda e a trazer discos, e vendem-se tantos, tantos, que depois, como os artistas vinham a Lisboa e viam os discos na minha loja, diziam que queriam gravar comigo”. Como produtor, o seu primeiro trabalho foi o EP Madrugada, de Marino Silva, em 1972. Entre os LP, o primeiro foi Brodway, de Luís Morais, no ano seguinte.
“Por volta de 1974/1975 o negócio já tinha tal envergadura que gravava no estúdio da Valentim de Carvalho, e começavam a chamar-me o rei da música cabo-verdiana, porque detinha quase a totalidade do que se fazia”. Carrondo recorda-se, nas suas declaraçõoes, de muitos êxitos que obteve e de vários grupos desconhecidos, que apenas tocavam em bailes e caves, que levou para o estúdio. “Uma vez, recebi uma carta da Radio Caribean Internacional, no Haiti, dizendo que o disco d’Os Apolos Nu nassi pa nu ama nôs terra ficara um mês no top daquela rádio”. Um dos seus maiores sucessos nesses anos foi Sintado na pracinha (1980), de Américo Brito, e Forti trabadja pa alguém, de Frank Mimita, foi outro dos mais vendidos. Carrondo teve também a distribuição exclusiva dos primeiros discos d’Os Tubarões.
Segundo o produtor, depois do 25 de abril diminuíram as vendas, já que muitos imigrantes regressaram a Cabo Verde e, de modo geral, houve nesse período uma grande quebra na economia portuguesa. Ainda assim, Armando Carrondo – que tinha como concorrentes Bana (Discos Montecara e Voz de Cabo Verde) e a Iefe – dominou esse mercado durante pelo menos mais uma década. Editou inicialmente com a designação Electromovel, depois com a etiqueta AR Som Records e mais tarde como Do-La-Si ou Do-La-Si/Electromovel. Há ainda alguns discos em que aparece simplesmente o seu nome como editor. Pelo menos 50 títulos de música cabo-verdiana terão sido editados entre os anos 1970 e 1980, entre aqueles produzidos pelo próprio Carrondo e reedições. Artistas e grupos angolanos também tiveram lugar no seu catálogo.
Dessa temporada, ficaram recordações curiosas e por vezes anedóticas. “Exportei para vários países, as pessoas pediam, eu enviava. Junto, ia uma nota a dizer: ‘um dia que venha a Portugal traga-me uma prenda, pois não posso enviar um disco à cobrança para o estrangeiro’. Os cabo-verdianos, como estão espalhados pelo mundo todo, ouviam falar de um disco, pediam-me”. Lidou também com a inexperiência de novatos e recém-chegados: “Muitos nem sabiam o que era gravar. Tive um moço que um dia apareceu-me no estúdio descalço. Luís Morais estava lá, eu disse-lhe: ‘Ó Luís já viste?’ E ele diz ao gajo: ‘Não nos faça passar vergonha, vais buscar uns sapatos’. Há muitas passagens engraçadas ao longo desses anos todos…”
Já perto dos anos 1990, vivia-se uma época de “vale tudo”, quando segundo Carrondo a qualidade era a última coisa que contava. “Um dia estou a ouvir um disco de um rapaz que quis gravar comigo mas não aceitei. No fundo da música ouço um tipo a dizer: ‘Tá calado pá, não faças isso…’ Como é possível um profissional fazer uma mistura e deixar passar tal coisa?” Em grande parte dos casos, segundo o produtor, eram pessoas com poucos conhecimentos, por vezes trabalhadores das obras que se juntavam, faziam um disco e andavam a vendê-los pela rua como quem vende jornais… Ao mesmo tempo, nesse período começava em força a pirataria. “Lançava um disco e no dia seguinte o mercado da Praça de Espanha e todas as feiras estavam inundados de cassetes piratas. Em alguns casos, na pressa, até faziam a capa em fotocópia a preto e branco!”
O problema da qualidade revela-se também, na produção desses tempos, nas capas, com listas de músicas que não correspondem à sequência que está no disco, outros que não trazem qualquer informação, como ano ou músicos que participam, entre outros aspetos. Muitos desses intérpretes fizeram um primeiro disco, venderam alguma coisa, foram fazer outros mas esses outros já não saíram, refere Carrondo. Mas tiveram de pagar o estúdio, as capas, as etiquetas, etc. Começaram então a ir para a Sonovox, o maior bloco discográfico português, na época. Carrondo, desanimado, deixou a atividade. A sua última produção, por volta de 1988, 1989, tinha por título Superdisco, e era do grupo Cretcheu a acompanhar um cantor cujo nome o produtor já não se recordava à altura da entrevista. Houve um problema com a capa e o LP acabou por ficar guardado no armazém. Jorge Janela, leitor atento de Cabo Verde & a Música – Museu Virtual, esclarece o nome do cantor: Calu.
Agradecimentos a Jorge Janela pela colaboração.