Hélio Batalha

Hélio Batalha Gomes da Rosa
Praia, Santiago, 1989
Cantor, compositor
Natural do bairro de Ponta d’Água, na cidade da Praia, Cabo Verde, Hélio Batalha vem de uma família humilde composta por oito irmãos. Aos nove anos perdeu o pai, ficando a mãe sozinha responsável pela criação dos filhos. Em entrevista ao Expresso das Ilhas (https://expressodasilhas.cv/cultura/2016/11/20/a-arte-de-batalha/50991, novembro de 2016), o rapper conta que a partir dos 11 anos ajudava a família, na venda ambulante de produtos alimentares.
Em Ponta d’Água – zona marcada por delinquência juvenil, desemprego jovem, consumo de drogas, alcoolismo e a violência baseada no género – Hélio Batalha cresceu e cedo desenvolveu uma visão crítica sobre a realidade social. Essa vivência viria a tornar-se uma das principais fontes de inspiração para a sua música.
Na adolescência, as principais escutas, para além de música cabo-verdiana e brasileira, eram de rap internacional que chegava às ilhas através das rádios e da televisão. Entre as suas influências musicais de então destacam-se nomes como Eminem, 50 Cent, 2Pac, Kanye West aos quais se viriam juntar depois Rakim, Nas, Dead Prez, Immortal Technique e, no espaço lusófono, Valete, Azagaia (com quem veio a gravar anos depois, para o seu disco De Cairo a Cabo), Nach, Shad B, Karraka, Central Side e Hip Hop Art.
O rap o marcava, disse ao Expresso das Ilhas, por ter sentido nas letras dos MCs que ouvia “verdade, preocupações, reflexões, indagações, amor e poesia”. Batalha reconhece também a influência de líderes africanos como Thomas Sankara e Amílcar Cabral na construção do seu pensamento e da sua obra musical.
Em 2007 deu os primeiros passos mais sérios na música ao participar num concurso radiofónico promovido pelo Ministério da Saúde. A sua primeira composição, gravada na sua primeira ida a um estúdio, e que criticava o sistema nacional de Saúde, acabou por conquistar o primeiro lugar. Esse momento tornou-se a grande alavanca da sua carreira artística.
Nos anos seguintes consolidou a sua presença no panorama do hip-hop criolo. Lançou as mixtapes Golpe de Stado I (2010), Golpe de Stado II (2012) e Selvas de Pedras (2014), trabalhos que ajudaram a afirmar o seu nome entre os principais rappers de Cabo Verde. Em 2015 lança o single “O Ki Fomi Txiga”. A composição destacou-se pela forte mensagem social e foi distinguida como Melhor Hip Hop/R&B na premiação Cabo Verde Music Awards (CVMA) em 2016, quando também recebeu o prémio Artista Revelação.
Este tema serviu de cartão de visita para o seu primeiro álbum Karta d’Alforria. Semanas antes do lançamento deste disco, em finais de novembro de 2016, deu a conhecer ainda o single “N Kre Tem”. O álbum, composto por 18 faixas, combinava contestação social com mensagens positivas de amizade, fraternidade e amor.
Em 2018, Hélio Batalha deu um passo importante na internacionalização da sua carreira ao assinar com a produtora Harmonia. Com Fattú Djakité, gravou o EP A.N.A, de 2019. Atuações em vários países, incluindo Portugal, França, Luxemburgo, Suíça, Itália, Alemanha e Macau, marcaram essa fase. Em Cabo Verde, partilhou o palco com artistas como Mayra Andrade, Os Tubarões e Lura. Os prémios continuaram a chegar: novamente Melhor Hip Hop/R&B na edição de 2017 dos CVMA e Personalidade do Ano 2017 na gala Somos Cabo Verde: Os Melhores do Ano.
Em abril de 2022, novo single: “Cima Nu Sta Nu Ka Podi Fika”. No ano seguinte apresentou o seu segundo álbum de originais, De Cairo a Cabo, ainda antecedido pelo single “Minina d’Sombentu”. O novo disco, produzido entre Cabo Verde e a Suíça (em parte durante a pandemia de Covid) trouxe 14 faixas, entre as quais os singles “Dexam Bua” e “Só Bensons”, com a participação das jovens cantoras Sónia Sousa e Hérica, respetivamente. Ambos foram grande sucesso junto aos mais jovens, somando mais de 5 milhões de visualizações no Youtube.
Segundo Hélio Batalha, o título do álbum faz referência a um projeto por ele criado que tem como meta explorar a cultura e a música dos países de África desde Cairo (Egito) à cidade do Cabo (África do Sul): “de uma ponta à outra” (Balai, maio 2023). “O meu objetivo é quebrar o preconceito que se tem com a música africana e com a África em si. Precisamos demonstrar mais interesse no nosso continente”, sublinhou na altura.
Ao longo dos anos o estilo musical de Hélio Batalha foi se tornando mais eclético e diverso, e De Cairo a Cabo acaba por refletir isso, com fortes referências do afrobeat e amapiano, mas também presença do funaná.
Depois de vários singles em 2024, em 2025 voltou a destacar-se nos CVMA ao conquistar os prémios de Música do Ano, Melhor Colaboração e Melhor Hip Hop com o tema “Só Deus”, em duo com Paulinha, e recebeu também o Prémio Ação Social, em reconhecimento pelo seu trabalho comunitário e social.
Testamentu é o terceiro álbum lançado em 2026. “Karta pa nha Mãe” e “Karta pa nha Filha” são dois dos primeiros singles em destaque e, segundo Batalha apontou à revista online Bantumen (março 2026), “são canções que partem de uma dimensão individual, mas rapidamente se tornam coletivas. Porque falar de paternidade responsável, de família, de herança emocional é falar do futuro de uma comunidade inteira”. O álbum marca a estreia da sua própria produtora, Immortal Records, depois do desvinculamento da Harmonia. “É a afirmação de um legado que sempre teve como missão a emancipação, a consciência e a promoção do meu povo.”
Paralelamente à carreira musical, Hélio Batalha licenciou-se em Serviço Social, reforçando o compromisso com as causas sociais. Para ele, a música sempre foi uma ferramenta de transformação social, mas não a única. Ao longo dos anos, tornou-se padrinho da ONG Castelos de Sal, que apoia crianças em situação de vulnerabilidade e criou uma escola de basquetebol para crianças e adolescentes de Ponta d´Água. Realizou também espetáculos solidários, promoveu palestras em escolas e universidades e participou em diversas iniciativas comunitárias. O seu envolvimento social levou-o ainda a assumir a função de padrinho da campanha contra o abuso do Álcool promovida pela Presidência da República de Cabo Verde e a dar o rosto à campanha nacional de combate à Violência Baseada no Género promovida pelo Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género. Em 2025 foi distinguido como uma das 100 Personalidades Mais Influentes da Lusofonia na Powerlist Bantumen 100.



Discografia
- Golpe de Stado I, mixtape, ed. autor, 2010.
- Golpe de Stado II, mixtape, ed. autor, 2012.
- Selvas de Pedra, mixtape, ed. autor, 2014.
- O Ki Fomi Txiga, single, ed. autor, 2015.
- Cabo Verde É Sábi Ma É Prigo, single, ed. autor, 2015.
- N Kre Tem, single, ed. autor, 2016.
- Karta D’Alforria, CD, ed. autor, 2016.
- Nha Ultimo Karta, single, Harmonia, 2018. Com Fattu Djakité.
- A.N.A, EP, Harmonia, 2019.
- Kulpa d’Kes MC’s, single, Harmonia, 2020.
- Nu Ta Kontinua Pa Li, single, Harmonia, 2020. Com Trakinuz.
- Immortal, EP, Harmonia, 2021.
- Firme, EP, Harmonia, 2021.
- Cima Nu Sta Nu Ka Podi Fika , single, Harmonia, 2022.
- Dexam Bua , single, Harmonia, 2022. Com Sonia Sousa.
- Minina d’Sombentu , single, Harmonia, 2023.
- Di Cairo a Cabo, álbum, Harmonia, 2023.
- Poemas single, Harmonia, 2024.
- Zumbi, single, Harmonia, 2024.
- Sima Nós Ka Tem single, Harmonia, 2024.
- Só Deus single, Harmonia, 2025.
- Pirigrinu single, Immortal Records, 2025.
- Nha Preta single, Immortal Records, 2025. Com Garry.
- Abensuadu single, Immortal Records,, 2025.
- Karta Pá Nha Ex single, Immortal Records, 2025. Com Myriiam.
- Festa La Fora, single, Immortal Records, 2025. Com Babysdu.
- Testamentu, álbum digital, Immortal Records, 2026.