Os cabo-verdianos e o hip hop
Por Gláucia Nogueira
O universo do hip hop em Cabo Verde é bastante amplo e heterogéneo. Contar esta história passa por falar dos rappers na diáspora; pelo surgimento do movimento em Cabo Verde nos anos 1990; pelos personagens mais recentes, já que ao longo da sua trajetória várias “gerações” já se sucederam… Passa ainda por falar naqueles que enveredaram por caminhos de fusão com outros géneros musicais, ou que andaram a pendular entre o rap e outras áreas; e ainda pelo cruzamento desta música com a questão da língua.
Propõe-se aqui um esboço do percurso do rap cabo-verdiano – ou melhor, o rap produzido por cabo-verdianos, onde quer que estejam –, ao longo de mais de três décadas.
Tudo começa no Bronx, bairro pobre de Nova Iorque que nos anos 1970 enfrentava as consequências de uma vaga de desemprego causada por avanços tecnológicos na indústria. A sua população era maioritariamente negra ou com origem em países da América Latina, e enfrentava uma crise que foi terreno fértil para o crescimento do tráfico de drogas, o surgimento de gangues e de modo geral o aumento da violência urbana. Nesse contexto, nasce o movimento hip hop, como uma forma de lazer de rua.
Apesar da depreciação que sofreu nos primeiros tempos, dada a sua origem social e a atitude crítica, o movimento hip hop alcança a TV e, a partir dela, torna-se uma febre nos Estados Unidos na década de 1980. Através do cinema, difunde-se internacionalmente, encontra fãs e ganha praticantes em todo o mundo.
Para saber mais
O hip hop é um movimento que engloba o breakdance, dança de rua baseada em movimentos acrobáticos; o grafitti, expressão visual do movimento, consistindo em pinturas murais; e o rap – estilo musical que nasceu caracterizado por letras ácidas, cheias de denúncias contra o racismo e situações de injustiça social, mais tarde evoluindo para outros temas. Recorde-se que rap é uma sigla, que quer dizer: “Rhythm and Poetry”.
Rappers cabo-verdianos e a diáspora
Tal como acontece com outros tipos de música, o rap produzido por cabo-verdianos passa em grande medida pelos países de destino da emigração, tendo em conta que é aí que vivem muitos dos seus personagens. Assim, o rap criado por cabo-verdianos e seus descendentes aparece em diferentes línguas, conforme a sintonia de cada um e o local onde vive – e, em vários casos, o local onde nasceu o rapper.
Além disso, foi dos Estados Unidos, onde nasceu o movimento hip hop, que partiram inspiração e influências que despertaram a vontade de rimar em jovens da Praia e do Mindelo, nos anos 1990. E naqueles que já residiam fora de Cabo Verde.
Djedjé, por exemplo, residia nos Estados Unidos. Foi um dos primeiros cabo-verdianos a aparecer como rapper. A sua primeira gravação aparece em 1996 num disco de Chandinho Dedé e dois anos depois lança o seu primeiro álbum. A partir de certa altura, assumiu o nome Jaystaman. Outros rappers cabo-verdianos ou de origem cabo-verdiana nesse país são Corey Depina, Chachi Carvalho, Mo Green, iLLspokinn, entre outros.
Em França, por exemplo, nomes como Stomy Bugsy, Jackie Brown, Jpax e Izé Teixeira marcaram a presença cabo-verdiana no cenário do rap. À parte as suas carreiras individuais, em 1998 reuniram-se sob a designação La MC Malcriado. Elji Beatzkilla, com origens na Boa Vista, surgiu mais recentemente.
A comunidade na Holanda – onde ao longo do tempo a diversidade e as novas tendências marcaram as criações musicais dos cabo-verdianos, com a adesão ao reggae e ao zouk – teve também um papel importante na trajetória do rap criado por cabo-verdianos. Foi na Holanda que o Black Side, um dos grupos pioneiros em Cabo Verde, e o primeiro de São Vicente a chegar a um estúdio de gravação em moldes profissionais, gravou o seu primeiro álbum. Ao longo dos anos 1990, surgiram outros grupos e Tha Real Vibe foi um que se destacou.
Hip hop Tuga
Em Portugal, onde a cultura hip hop desembarca na segunda metade da década de 1980, o surgimento de rappers entre imigrantes provenientes dos Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP) ou portugueses afrodescendentes – com destaque para o pioneiro General D, de origem moçambicana – foi muito marcante. Boss AC, de origem cabo-verdiana e que foi também um pioneiro do rap em Portugal, e um dos que atingiram grande notoriedade, é um dos exemplos mais salientes.
Hip Hop Tuga: quatro décadas de RAP em Portugal, lançado em 2023 pelo jornalista Ricardo Farinha, é uma entre várias obras sobre o tema e consiste num dicionário de personagens do universo hip hop em Portugal. O livro conta as histórias de rappers, grupos e outras figuras desse contexto. Mostra como algumas trajetórias que mais tarde ganharam outros rumos, como é o caso de Dino d’Santiago por exemplo, nasceram de grupos juvenis em áreas periféricas das principais cidades portuguesas, em ambientes de precariedade socioeconómica e com grande número de imigrantes. E entre estes últimos, já se sabe, os cabo-verdianos encontram-se em grande número, e os seus descendentes têm papel de destaque nesta história.
O bairro de Miratejo, no município do Seixal, margem sul do Tejo, é apontado como o local onde o hip hop começou a se desenvolver em Portugal. Inicialmente com rimas em inglês. Também aqui a influência da diáspora é importante, pois cassetes chegavam aos jovens em Portugal a partir dos seus contatos com familiares em França, Estados Unidos ou outros países. Muitos jovens negros sentiam a necessidade de se agrupar, escreve Farinha, referindo-se ao município de Almada, “diante da grande presença de skinheads de extrema-direita que cometiam actos de violência contra cidadãos de minorias étnicas”. Nesse contexto surge o hip hop em Portugal. O documentário Filhos do Meio – Hip Hop à Margem (2025), do realizador Luís Almeida, conta a história do rap na Margem Sul do Tejo.
Nigga Poison (duo formado por Karlon e Praga, ambos descendentes de cabo-verdianos, que cresceram no bairro da Pedreira dos Húngaros, município de Oeiras) surge em 1994, e foi uma das formações pioneiras a rimar na língua cabo-verdiana. Conseguem boa presença nos media e em 2007 são nomeados para um Globo de Ouro (premiação do canal de TV SIC), como Banda Revelação. “Um feito improvável para uma dupla de rap, sobretudo de crioulo, oriunda de um gueto de Lisboa”, nas palavras de Ricardo Farinha. Alguns anos depois, separam-se. Karlon segue carreira solo.
Nomes como Carlão (ou Pac Man) e o irmão Jay Jay Neige, fundadores do Da Weasel, que veio a se tornar uma das mais célebres bandas portuguesas ao longo de quase duas décadas, são outros exemplos de descendentes de cabo-verdianos neste contexto. Entre outros nomes, refira-se o adolescente Alex, que aos 13 anos obteve enorme e efémero sucesso com um single em 1996, “Bow Wow Wow”, em nome de Alex e Os Putos do Bairro.
Djoek, outro cabo-verdiano que se destacou momentaneamente no rap em Portugal, chegou à Amadora aos 16 anos, levando já de Cabo Verde a prática do breakdance. Criou um estúdio caseiro, que terá sido o primeiro no bairro da Cova da Moura, assim como terá sido o primeiro a gravar um disco em Portugal com letras na língua cabo-verdiana, Nada mi N’Caten. O videoclipe do single “Amigrimi” fez sucesso e a partir daí o jovem passou a colaborar com General D, aparecendo num dos seus discos e em atuações do moçambicano, segundo Hip Hop Tuga. Mais tarde Djoek envereda por outros ritmos, como funaná e kizomba.
Por sua vez, Celso OPP (sigla que significa Outurela Portela Projects), que tem laços de parentesco com Luís Morais, começou a rimar aos 14 anos e logo criou os Show Gun, que lançou em 1997 uma mixtape, Guetto na Memória, seu único trabalho. Em meados dos anos 2000, Celso vai partir para fusões com outros géneros musicais, numa época em que essa prática era mal vista no mundo do hip hop. A certa altura, com um primo, cria os SS (com o sentido de “sampadjudos”, a revelar a sua origem geográfica, mas esta designação foi abandonada por poder ser conotada com as SS nazis. Então, mudaram o nome para Samp. Alguns anos mais tarde, ao lançar-se a solo apostando no mercado francófono, tendo em conta que se transferira para França –, adoptou o nome Rahiz. Em 2014, lançou o EP I’m Rahiz e em 2105 The I in Me, mesclando rap, kizomba, reggae e outros estilos. A partir daí foi nomeado e galardoado em premiações nos Estados Unidos e em Cabo Verde.
Outro exemplo do “rap tuga” que evidencia a presença importante de cabo-verdianos foi o grupo Da Blazz, que surgiu na linha de Sintra e tinha entre os seus membros Jay (atualmente Jay Moreira) e Landim, que veio a ser um dos nomes de destaque do rap em Portugal. O primeiro álbum saiu em 1999, e o grupo produziu até aproximadamente 2014, com alguns sucessos nesse percurso.
Chullage (mais tarde Xullaji, ou Pretu) é outro nome de destaque, rimando em cabo-verdiano e em português, com letras ácidas e contundentes a retratar a vida nas periferias de Lisboa. Destaca-se também como ativista social.
Ghoya, Landim, Loreta, Né Jah, que criou com amigos o coletivo Fidjus di Barraka (Dfib), Rafa G, Vado Más ki Ás, Minda Guevara, ApolloG, Julinho KSD, Nenny e BigZ Patronato são nomes que surgem já a partir da década de 2000. Atingindo o rap cada vez mais espaços mainstream, na indústria cultural global, é de prever que mais nomes associados a Cabo Verde virão a aparecer.
Os primórdios do movimento hip hop em Cabo Verde
Na primeira metade dos anos 1990, Heavy H encontrava-se a estudar numa universidade no Arizona, e ao regressar a Cabo Verde já chegou causando polémica, incompreendido pela novidade que estava a introduzir na cena musical do país. Num artigo publicado no Novo Jornal Cabo Verde, o artista defende-se das críticas que recebeu a seguir à sua participação no festival da Gamboa, em 1994.


Para Gugas Veiga, que na época também regressava dos estudos nos Estados Unidos e foi um dos responsáveis pela dinamização do movimento hip hop na Praia, com a organização de eventos e mais tarde produzindo discos, havia um grande conservadorismo em Cabo Verde por essa altura, e Heavy H surgiu como um inovador (ver entrevista em Cabo Verde & a Música – O Podcast).
Se Heavy H não foi compreendido por alguns, naquele momento, essa é só uma faceta da questão, pois grupos juvenis já tinham sido conquistados pela cultura hip hop, que ao longo dos anos 1990 fervilhava, tanto na Praia como no Mindelo. Entre esses grupos e artistas contam-se, na Praia, Bairro Side, as Chippie, raro grupo feminino, Azaiaz, Diplomatas, Niggaz Badiu, entre outros. Em São Vicente, despontavam grupos como Bairro Norte, Black Side, DAD, IPV (Irmãos para a Vida), Hip Hop Arte e figuras como DJ Letra, Expavi, Ku4rta K e Mo Green.
O Centro Cultural Francês, como mostra a imprensa da época e como Gugas Veiga recorda na sua entrevista, foi um ponto de apoio ao movimento nesses primeiros tempos. O produtor recorda também que, num primeiro momento, os grupos da Praia e do Mindelo não se misturavam, e que foi a partir de convites de festivais de Santo Antão que eles começaram a aparecer nos mesmos eventos.
De lá para cá, muitos novos artistas e grupos surgiram, destacando-se, depois da virada do milénio, nomes como Batchart, Hélio Batalha, Rapaz 100 Juiz, entre outros.
Discografia


Assim como Rapública reuniu em 1994 vários nomes do rap que então começavam a se destacar em Portugal – grupo em que se incluem Boss AC e os Family, ligados às ilhas – em Cabo Verde será uma década mais tarde que um disco do género irá aparecer: o CD Hip Hop Praia (2005), reunindo artistas que naquele momento despontavam na capital cabo-verdiana a produzir rimas ritmadas.
Constam do disco os grupos Niggaz Badiu, Diplomatas, Black Stone, Bairro Side, a dupla feminina Elsa e Tatiana e Azaiaz, que dirige e produz o projeto, além de apresentar criações suas.
Além dos jovens rappers e até algumas crianças, participaram nas gravações alguns veteranos, como o guitarrista Santos e o baixista Russo (Mário Bettencourt), além de Xindo, co-autor de um dos temas, com Azaiaz. O curioso deste disco é que, sem se inserir na estética do rap, Éder, apresentador da TCV que gravou uma balada romântica em que se acompanha ao violão e que “pegou boleia” no álbum, foi possivelmente quem mais fez sucesso. “Mi gó” tocou incessantemente durante meses nas rádios em Cabo Verde.
Rappers e grupos de rap
(lista não exaustiva)
Alfama P, Batchart, Bairro Norte, Bairro Side, Black Side, Boss AC, Buddha, Chachi Carvalho, Chipie, Chullage, Corey de Pina, Da Weasel, DAD, Djedjé Jaystaman, DJ Letra, Expavi, Ga da Lomba, GG, Heavy H, Hélio Batalha, Hip Hop Art, IPV, Izé Teixeira, Jacky Brown, Jay Moreira, Kiddye Bonz, La MC Malcriado, Rapaz 100 Juiz, Stomy Bugsy.
Para saber mais
O rap crioulo em Portugal: corporalidades em performance dando voz a novas rualidades, artigo de Ângela Maria de Sousa
Entrevista de Graham Douglas ao realizador Luís Almeida sobre o documentário Filhos do Meio – Hip Hop à Margem
Redy Lima entrevista DJ Letra no seu podcast
Ver e ouvir
Esta é uma

Pouco a pouco, novos nomes virão a fazer parte dela.
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