Fattú Djakité

Por GN em

Fattú Djakité. Fonte: Internet

Fatumata Djaquité

Bissau, Guiné-Bissau, 1990

Cantora

Em 2004 Fattú Djakité era uma adolescente de 13 anos que, como muitas outras, sonhava com o mundo da música, contou em entrevista ao jornal A Voz (março 2015). Como poucas, pelo menos na cidade da Praia daquela época, teve a oportunidade de entrar num pequeno estúdio de bairro e gravar uma música. Como poucas da sua idade, teve a ousadia de pegar na música gravada e levá-la a uma rádio local e pedir que a passassem. Na rádio deu-se o encontro que mudaria a sua vida e desencadearia a sucessão de acontecimentos que culminaram no sucesso estrondoso do seu single Badja Tina (2025).

Em todas as entrevistas que dá sobre o início da sua carreira, a cantora relata a história de como o músico e compositor Princezito acolheu a sua música e tornou-se desde então um amigo e o seu mentor na música, criando-lhe oportunidades de ganhar experiência ao indicá-la para fazer coros para artistas já firmados e até fazendo-a chegar, pouco tempo depois, ao célebre Quintal da Música, na cidade da Praia, para aquela que seria a sua primeira actuação em palco, fazendo covers de algumas mornas.

Fatumatá Djaquité, nascida em 1990 na Guiné-Bissau, conforme relatou ao jornal espanhol El Pays, mudou-se para Cabo Verde com a família aos 5 anos, em meados dos anos 1990. A convivência entre as fortes raízes guineenses e a nova identidade caboverdiana que se foi firmando foi ganhando evidência na sua música depois de um arranque mais “ao sabor da onda”: em 2008, aos 17 anos, gravou um zouk para o projeto Verão 2008 – uma série de discos colectivos muito em voga naqueles anos e que revelava jovens talentos.

Por essa altura, aproximava-se do fim dos estudos liceais e o apelo da música continuava a falar alto. Conforme a sua biografia partilhada com Cabo Verde & a Música – Museu Virtual em abril de 2026,  em 2012 deu-se um novo marco importante no seu percurso: a conquista do 3º lugar no concurso de talentos musicais Estrela Pop, produzido pela televisão pública cabo-verdiana, TCV. A partir de 2013 lança alguns singles enquanto prepara a gravação do seu primeiro álbum. Destaca-se “Bendedera de Sol”, de 2015, um funaná contemporâneo escrito especialmente para ela por Princezito e produzido por Hernani Almeida.

Dois anos depois estava a caminho do Brasil para gravar o seu primeiro disco. Não deu certo logo. Praia-Bissau só veria a luz do dia em 2022, e entretanto algumas coisas mudaram na sua vida. Casou-se e engravidou do primeiro filho. Começou a explorar mais o seu interesse pelas artes plásticas, dedicando-se em particular a gravuras abstratas.

A sua estética em palco – quer nos figurinos e acessórios, quer nos penteados e até nas danças e na colocação da voz, começou a reflectir mais e mais o abraço às raízes guineenses. A forte reaproximação à sua ancestralidade materna marca Praia-Bissau e reflete-se também na sua música, nas suas composições. Neste disco canta muito mais em crioulo da Guiné-Bissau, para além do cabo-verdiano e do português. “Sinto-me privilegiada de cantar em crioulo guineense, de manter viva a minha língua, não deixar perder a conexão com a minha herança”, disse a El Pays.

Praia-Bissau (2022), produzido pelo brasileiro Maurício Pacheco, traz algumas colaborações importantes: com o brasileiro Emicida gravou “Refugiado de Guerra”, também este um tema ancorado nas suas memórias de infância; nas composições contou com Zézé di Nha Reinalda, Élida Almeida e Djoy Amado e regravou clássicos do guineense José Carlos Schwarz. O disco  rendeu-lhe os prémios de Melhor Intérprete Feminina e Música Tradicional do Ano na gala dos Cabo Verde Music Awards (CVMA) 2023 e presença no festival Músicas do Mundo de Sines (Portugal, 2024).

As composições de Praia-Bissau permitiram-lhe continuar e reforçar a sua posição de ativista social  aflorada durante a pandemia de 2020, sobretudo no que toca às questões de género. Criou a campanha Badjuda Bunita, de estímulo à autoestima e ao autocuidado de mulheres africanas. Contra o abuso sexual de menores e pela proteção das meninas, lançou em 2024 um canal no Instagram (Privini.Di.Abuso.Sexual).

Por sua vez, em 2025, o single Badja Tina é um alerta contra o casamento infantil e o silenciamento das violências cometidas contra meninas guineenses, nomeadamente a mutilação genital. Este trabalho trouxe-lhe exposição internacional nunca antes experimentada, com entrevistas e ensaios fotográficos, além de elogios no meio artístico brasileiro e de Hollywood, como a própria Fattú destacou na sua conta no Instagram. Recebeu a distinção Best Inspirational Woman of The Year nos prémios Zikomo da Tanzânia. Em Cabo Verde, foi nomeada em quatro categorias nos CVMA e recebeu dois prémios: Outros Ritmos do Ano e Melhor Artista em Palco.

À parte a carreira solo, em 2019, com o companheiro, o músico Dieg, e os amigos Alberto Koening, Ndu Carlos, Nelly Cruz e Djodje Almeida, fundou a banda Azágua. A música do colectivo é descrita como fusão entre o moderno e o tradicional, componentes eletrónicos e harmonia de vozes. Nesse mesmo ano actuaram na Atlantic Music Expo (AME) e na extensão do Kriol Jazz festival (Kriol Zona). A este festival Fattú regressou em 2026, agora a solo e no palco principal.

Discografia

  • Expensive, single, digital, 2013.
  • Bendedera di Sol, single, 2015.
  • Yoga Luna Dogon, single2015.
  • Praia-Bissau, álbum, L’Una Studios/Maianga Discos/Fattú Djakité, 2022.
  • Badja Tina, single, 2025.
  • Ceará Negro, single, 2026. Com Flávio Paiva.

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