Quem canta Hip-Hop tem que ter consciência social!
Por Samira Pereira
Texto divulgado em A Semana Online (25.02.2016), publicado originalmente na Revista Cabo Verde Grátis e no site JovemTudo (Novembro, 2015)
Lembro-me quando eu tinha 12, 13 anos de idade, no início dos anos 90, do surgimento do movimento do Hip-Hop ou do Rap em Cabo Verde, mais especificamente na Ilha de São Vicente. Nessa época, os meus irmãos eram uma espécie de ligação entre o mundo do rap americano e os jovens da cidade do Mindelo, com quem eles mantinham laços de amizade. Por isso, a minha casa situada na Rua Senador Vera Cruz, no centro da cidade, transformou-se no local de trocas de cassetes e CDs de música americana, onde estes jovens iam não apenas ouvir, iam também produzir muitas das músicas que saíam na altura.
Lembro-me que, apesar de serem amantes do rap e de terem acesso às músicas em primeira-mão, os meus irmãos formaram o seu grupo bem mais tarde, muito depois daqueles que iam surgindo nesta altura. Um verdadeiro boom do Hip-Hop e do Rap. Entre os 30 e tal grupos surgidos na altura, lembro-me de, nomeadamente:
os Ice Company que se imortalizaram com a música Nhonton.
– os Black Side que, na minha opinião, produziram um dos melhores CDs de música cabo-verdiana de todos os tempos e que para mim é intemporal e intergeracional.
-os BFL (Brothers for life), grupo do ainda, hoje conhecido DJ Letra que tem dado um contributo enorme para a música cabo-verdiana.
os DAD, PTR, Niggaz sem Vida, o Bairro Norte, IPV, entre outros. Havia um grupo, do qual eu não recordo o nome, que tinha uma música chamada “Matá barata” e que sempre que subiam ao palco faziam uma coreografia onde fingiam estar a matar baratas.
Os grupos mais próximos da minha casa estranhavam o facto de os meus irmãos e primos ainda não terem o seu grupo e insistiam que estes criassem também o seu. Afinal, como era possível aqueles que dinamizavam os, já referidos, encontros em sua própria casa, não tivessem, ainda, aderido publicamente a este movimento?
E foi assim, que os meus irmãos juntamente com os meus primos criaram os Nappys and the Boldheads (os trancinhas e carecas) destacando os penteados que estes usavam na época.
Estes grupos actuavam na ilha de São Vicente e havia quem actuasse nas outras ilhas também. Numa destas viagens, ocorreu o fatídico e triste acidente com um dos elementos, do já referido Ice Company, o jovem Vick. Nessa altura, todos os grupos de hip-hop, de dança e outros jovens uniram-se na dor e lembro-me que o funeral do jovem foi invadido por uma multidão ao som da música Dear momma do também, já falecido, rapper americano Tupac Shakur.
Esta história se fosse contada por um dos meus irmãos, o Miguel Silva ou pelo próprio DJ Letra, teria sem dúvidas menos lapsos de memória e muito mais detalhes por contar. Na altura eu era uma espécie de mascote lá em casa, que seguia todos os passos dos irmãos mais velhos e dos seus amigos.
Eu guardo esta memória pois sem querer acabei envolvida neste movimento no dia em que a voz feminina do grupo dos meus irmãos não conseguiu acompanhá-los num espectáculo e tive que ajudá-los, fazendo coro na sua música mais conhecida “Oli verão”.
Os momentos de convivência com estes grupos contribuíram para que eu tivesse uma adolescência livre de drogas, pois não me recordo de os ver consumindo. Não quero com isso dizer que estes grupos iniciais do movimento do hip-hop não o fizessem. Simplesmente não me recordo de estar num ambiente onde houvesse um estímulo para tal.
Havia também nessa altura, uma espécie de relação saudável entre os grupos de hip-hop, entre a chamada geração old school. O que se deve, talvez, ao contexto da época. Estavam todos no início, havia menos acesso àquilo que vinha de fora, havia uma maior partilha e troca de experiências, havia uma competição saudável e no fundo eram mais amigos uns dos outros. Mas também o meio era mais pequeno. Cabia na sala da minha casa.
Contudo, a partir dos finais dos anos 90 e início de 2000, começaram a importar as famosas beefs (disputas) que aconteciam entre os artistas americanos para a nossa pequena realidade. Os grupos de Hip-Hop começaram a escrever letras e rimas enviando recados uns aos outros, o que levou à rivalidade entre si.
Atualmente tal continua a acontecer. Volta e meia, tomo conhecimento de mais um jovem pertencente a determinado grupo que foi espancado por membros de outros grupos por ter enviado “algum recado” a estes. Tem-se importado inclusive, as lutas entre gangs rivais que deixaram de estar apenas no domínio da música e tem passado as vias de facto levando a que muitos jovens percam a própria vida.
A sociedade são-vicentina tem assim, no seu imaginário, associada uma visão negativa de quem canta hip-hop, “metendo no mesmo saco” todos aqueles que se encontram na defesa deste movimento. O que tem sido injusto para aqueles que realmente lutam por um hip-hop que leva uma mensagem positiva e construtiva para os jovens e para a sociedade em geral.
Voltando à minha adolescência, arrisco-me a caracterizar o movimento do rap do início dos anos 90 com uma certa dose de inocência, pois tudo estava a começar e portanto, havia uma espécie de descoberta e enamoramento pelo hip-hop e o rap.
Os grupos andavam com as suas aparelhagens de som às costas, vestiam o swag daquela época, sempre seguindo o estilo americano. Utilizavam inclusive, os instrumentais das músicas americanas para cantar as suas rimas.
Actualmente o hip-hop kriol amadureceu. Os artistas produzem os seus próprios beats (ou instrumentais) e têm rimas que são autênticos hinos revolucionários. Primam por espectáculos com música ao vivo. Existem carreiras a serem geridas por managers. Viajam por quase todas as ilhas inclusive, para o estrangeiro. Continuam as parcerias na música não apenas com artistas de hip-hop, mas com artistas de outras áreas da música cabo-verdiana. Produzem vídeos com maior qualidade e comunicando melhor. Associam a sua imagem a determinadas instituições. Recebem prémios que os distinguem na sua área.
E têm, sobretudo, aquilo que eu gosto de destacar: milhares de jovens que os admiram, os seguem, os idolatram, que sabem as suas letras de cor e salteado e sonham um dia vir a ser como eles. Por tal, precisam de uma maior consciência social do que na época dos meus irmãos. Se durante a minha adolescência, o movimento do hip-hop chegava a um número menor de jovens, hoje atinge uma camada jovem muito maior dado o aumento populacional do país.
A forma como cada grupo ou artista dimensiona esta realidade tem sido alvo de muitas críticas, pois sendo o hip-hop um importante instrumento de intervenção social, o facto de estar a ser institucionalizado poderá retirar-lhe este poder. Por outro lado, nem sempre quem canta hip-hop tem consciência do seu papel na sociedade. Tornam-se assim, necessárias quer uma maior reflexão sobre estas questões que neste texto estão a ser levantadas quer a abertura de um espaço de diálogo entre os artistas e os seus seguidores.