Djô da Silva

José Augusto Silva Almeida
Praia, Santiago, 1959
Editor, produtor, empresário, compositor
Responsável por lançar Cesária Évora numa carreira internacional de êxito sem precedentes no que diz respeito a artistas cabo-verdianos, Djô da Silva criou em 1988 a Lusafrica, com sede em Paris, cujo primeiro álbum editado é justamente aquele com que começa o seu trabalho com a cantora: La Diva aux Pieds Nus. Pela Lusafrica irá passar a edição de discos de muitos outros artistas cabo-verdianos – Lura, Princezito, Tcheka, Teófilo Chantre, Bau, Boy Gé Mendes são alguns nomes de uma extensa lista – e de outras origens. De Cuba, editou Orchestra Aragon, Septeto Habanero, Osdalgia, Cubanito, Leyanis Lopez, entre outros. Entre artistas africanos, contam-se Bonga (Angola), Boubacar Traoré (Mali), Mounira Mitchala (Chade) e Pierre Akendengue (Gabão), entre outros. Além da produção, edição e management, a Lusafrica assume, em outros casos, o trabalho de distribuição de discos produzidos por outros. Em Cabo Verde, está presente através da Harmonia, com lojas em várias ilhas. Em 2012, venceu o Womex Label Award, sendo considerada a melhor editora independente de world music pelo salão mundial desse segmento. Em 2010 fora classificada em terceiro lugar. Na área da gestão de direitos de autor, Djô da Silva criou a Africa Nostra.
Antes de criar a Lusafrica Djô da Silva já produzia, havia alguns anos, artistas cabo-verdianos em França. Ao longo da década de 1980, Jacqueline Fortes, Damião Matias, Dudu Araújo e Nando da Cruz foram alguns cujos discos produziu e/ou editou. Certos álbuns dessa altura trazem a indicação José da Silva, outros vêm como Joman’s (quando em coprodução com Manu Lima) e há ainda a parceria José da Silva/Orlando Juff, este último proprietário de uma loja de discos no centro de Paris, Cabo Verde Music. “Era uma época complicada porque nenhum de nós tinha experiência, então produzíamos discos, fabricávamos, Orlando tomava 500 discos para vender, eu, outros 500, Manu Lima outros tantos, as contas eram complicadas, muitos iam de borla, não funcionava muito bem…” (Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens).
Quando começa a gravar La Diva aux Pieds Nus, em 1987, trabalhava com Juff, mantendo o nome Joman’s, mas já sem Manu. Este aparece, em parceria com Luís Morais, como arranjador em metade dos temas deste álbum (a outra metade estava a cargo de Paulino Vieira). “O disco começou a custar tanto que chegou um momento que não havia mais dinheiro, então paramos o trabalho em estúdio. Comecei a pedir emprestado dinheiro para tentar terminar, depois o banco já não funcionava, passei para a família, mãe, etc. Juff parou no meio do caminho, não tinha condições para prosseguir. Continuei sozinho, e consegui concluir a gravação. Depois passei uns seis meses a percorrer empresas para distribuição”, conta Djô da Silva. Então, encontra finalmente uma distribuidora que aceita o trabalho: Buda Musique, cujo dono faleceu antes de o disco ser lançado – e, portanto, não viu o resultado daquele pontapé de saída que ajudou a dar. Djô consegue recuperar o investimento e compra a parte de Juff no disco. É nessa altura que começa a ser usado o nome Lusafrica, ainda que inicialmente trabalhando em casa – só em 1992 a empresa é oficialmente criada e ganha um escritório próprio.
Nos anos 1980, o percurso de Djô da Silva passou também pelo Sun of Cap, em que tocou percussão, e pelo Cabo Verde Show, como manager. Em 1984, este grupo passava por uma crise e Manu Lima foi para o Sun of Cap tocar teclados. Quando este grupo acabou, Djô e Manu decidem relançar um grupo, mas sem o nome Cabo Verde Show. “Começámos a acompanhar artistas, fizemos uma digressão a Cabo Verde (1985) com Jacqueline Fortes, Damião Matias, René Cabral e Manu Lima. Chamamos isso ‘tournée das quatro estrelas’”. No regresso a França, relançam o grupo com o nome Cabo Verde Show, já que afinal eram os mesmos músicos. A edição dos discos deste grupo, contudo, não passa por Djô da Silva, o que só em 2008 irá acontecer: Cabo Verde (Show 2008) tem a etiqueta da Lusafrica.
Nascido na Praia, Djô da Silva foi levado com poucos dias de vida para o Senegal, onde permaneceu até aos 13 anos, com a mãe. Ela partiu primeiro para Paris, ele seguiu um ano mais tarde. Na capital francesa, a mãe trabalhava como doméstica e ambos moravam na casa dos patrões, num bairro chique que não era local de residência habitual de cabo-verdianos. Foi aí que Djô frequentou a escola, e sequer falava bem a língua cabo-verdiana quando, aos 17 anos, começou a frequentar as associações de imigrantes. Em 1980, decidido a conhecer Cabo Verde, viajou sozinho, apenas com o endereço da avó, em São Vicente. Descobriu então a família, acabou arranjando amigos, voltou para França já 100% cabo-verdiano. A partir daí, começou a mexer-se no meio associativo, organizava bailes e concertos, o próprio Sun of Cap nasceu das vivências na associação Samba. Ainda na área associativa, colaborou, desde a sua criação, com a associação Crianças de Hoje e de Amanhã. Participou também como dirigente da Cabo Verde Business Club (CVBC), associação dos empresários cabo-verdianos em Paris. Antes de enveredar definitivamente pelo mundo da música, trabalhou na SNCF, a companhia dos caminhos de ferro francesa.
Djô da Silva tem ainda uma faceta pouco conhecida, a de compositor, tendo composto em parceria com Teófilo Chantre o tema “Sorte”, gravado por Cesária e por Manuel d’Candinho, com o pseudónimo Nika Sicile (que inventou a partir das alcunhas da avó e de um tio). Por sua vez, Izé gravou o seu tema “Tronku di mundo”.
Nos anos 2000, Djô da Silva foi o responsável por criar o Kriol Jazz Festival, evento que anualmente movimenta a capital cabo-verdiana no mês de abril, mostrando música crioula de diferentes pontos do mundo.

