Batchart

Edson Paulo Santos Silva
Mindelo, São Vicente, 1986
Cantor, compositor
Desde cedo, Batchart revelou interesse pela música e pela escrita, encontrando no rap uma forma de expressar-se. Pensamentos, vivências e críticas sociais estão plasmadas nas suas letras desde os primeiros trabalhos, com temas como a realidade da juventude, as dificuldades do dia-a-dia, as desigualdades sociais e a busca por melhores condições de vida.
Cresceu entre tios e primos, em Chã de Licrim, Mindelo, onde encontrou um ambiente favorável às artes: teatro, carnaval, alguns dos tios tocavam instrumentos musicais. Ele próprio, no início da adolescência, chegou a arranhar o violão.
Por volta dos 13 anos, as suas maiores influências eram rappers de Portugal e do Brasil, porque conseguia compreender bem as letras. Foi nessa altura que, com outros oito rapazes, entre os quais Expavi (com ele, o único que pelo menos até 2026 continua ativo na música) integra o Hip Hop Art, grupo com o qual viria a gravar pela primeira vez, aos 17 anos. Retrot Rappod, de 2003, foi produzido pela Harmonia.
No ano seguinte, mudou-se para a Cidade da Praia, para estudar na universidade. Formou-se em Sociologia, especializando-se em Psicologia de Educação e Desenvolvimento. Atuando nessa área, tornou-se sócio de um centro educacional na capital.
Durante os anos na universidade, esteve ligado ao ambiente criativo promovido pelo Centro Cultural Francês da Praia, que acabaria por estimular o seu segundo registo gravado, a mixtape Voz d Revolta, de meados dos anos 2000.
É com o disco Wikileaks (2012), que Batchart marca em definitivo a sua entrada no panorama da música cabo-verdiana. A sua primeira produção a solo e independente, com participação de Renato Almeida (Naná) e Gol Beatz, foi também o seu último trabalho a sair em disco físico. Wikileaks, atualíssimo título numa altura em que era notícia em todo o mundo o escândalo – com esse nome – das informações vazadas dos serviços secretos norte-americanos e divulgadas pela Internet, também põe o dedo na ferida ao abordar temas como corrupção, nepotismo e outras mazelas do dia-a-dia que nem sempre conseguem ser notícia em Cabo Verde, regista Cabo Verde & a Música – Dicionário de Personagens.
A veia social sempre presente, manifesta-se também no seu engajamento enquanto voluntário na Associação dos Deficientes Visuais de Cabo Verde (Adevic), como dá conta o blogue Criol Na D´scontra. Um dos seus videoclipes, aliás, tem como tema a inclusão das pessoas portadoras de alguma deficiência. Em 2013, recebeu o prémio de melhor rap no Cabo Verde Music Awards referente ao ano de 2012 pelo tema “És é pa bó” e protagonizou uma campanha em prol da paternidade responsável. No ano seguinte, nesta mesma premiação, levou o troféu na categoria Ação Social, bem como de Melhor Artista em Palco, fruto das bem acolhidas atuações de divulgação das músicas de Wikileaks.
O próximo disco, Resiliente, só viria em 2021. Uma das músicas que nele constam é “Acreditá”, com participação de Djodje e do coral da Escola Secundária Jorge Barbosa, de São Vicente. O tema, que aborda a importância da saúde mental, é um grande sucesso com o seu vídeo a ganhar milhares de visualizações no Youtube e contribuindo para a distinção de Resiliente como Álbum do Ano nos CVMA 2022.
Entretanto, no intervalo entre Wikileaks e Resiliente foi acumulando outros trabalhos e prémios: em 2020 apareceu na Bantumen 100 PowerList (uma plataforma online influente na África lusófona), foi gravando singles com outros artistas (como Djam Neguin e Kiddye Bonz), ofereceu composições a nomes como Djodje, Hélio Batalha, Josslyn e Elly Paris (algumas ainda não editadas) e dedicou-se aos seus videoclipes, não apenas como intérprete mas também enquanto diretor criativo e produtor executivo. Vieram a render-lhe mais dois prémios CVMA, Melhor Videoclip em 2023 e 2025. Outros troféus CVMA: Melhor Hip Hop 2018 e Menção Honrosa Artista Solidário 2019. O prémio referente a 2025 vem na sequência do EP colaborativo 1+1, parceria com a jovem mindelense em estreia Maya Neves.
A sua vertente de ativista social rendeu-lhe uma distinção da organização Observatório da Cidadania em 2024 e o Prémio Direitos Humanos Ativista Social pela Comissão Nacional de Direitos Humanos em 2025.
“Não acredito que somos resultado só daquilo que recebemos diretamente. Acredito que, por vezes carregamos connosco influência de pessoas com quem nem chegamos a conviver. Acredito que trazemos certo tipo de coisas na nossa linhagem”, afirma em entrevista a Cabo Verde & a Música – Museu Virtual (março de 2026). E cita o seu próprio exemplo enquanto neto do filho de Anton Tchitche (António Silva Ramos) autor daquela que é considerada uma das primeiras músicas de intervenção de Cabo Verde, a morna “Abissínia. Anton Tchitche é o pai da pianista Tututa, portanto, tia-avó de Batchart. Mas foi um outro tio, Gau, um dos integrantes do Black Side – uma das primeiras formações musicais de rap em Cabo Verde – que mais diretamente o influenciou nos seus primeiros passos no rap.
Em 2026, foi um dos artistas cabo-verdianos a actuar na 12ª edição da Atlantic Music Expo (AME).


Discografia
Participação no CD Retrot Rappod, do grupo Hip Hop Art, 2003.
Participação na mixtape Voz d Revolta, 200?.
Participação no CD Claridade, 2010, do grupo Rapaz 100 Juiz.
Participação no CD Kabeça Tronk i Membre, 2010, de Kuarta K.
Wikileaks, CD, e/a, l/d, 2011.
Resiliente, CD, 2021
1+1, EP colaborativo com Maya Neves, 2025.